Desperdício contabilizado

A instalação de medidores individuais de água em condomínios já é incentivada por leis de vários municípios, em razão da economia. Construtoras já estão adotando o sistema e acreditam que será um direfencial de vendas.
Juliana Nakamura


Depois das bacias sanitárias de seis litros, das torneiras automáticas e eletrônicas e, ainda, dos restritores de vazão, a batalha contra o desperdício de água ganha mais um aliado. Incentivadas por leis municipais, criadas na segunda metade da década de 90, que determinam a adoção de medição individualizada em projetos novos, aos poucos, os condomínios estão uti8lizando hidrômetros individuais de água, em detrimento dos coletivos.

Em São Paulo, as construtoras Bracco e Thomé, em conjunto com a Practical Soluções Imobiliárias, lançaram recentemente dois empreendimentos na capital paulista com infra-estrutura pronta para receber os medidores individuais. Na capital fluminense, a W3 Engenharia também empregou esse tipo de equipamento no Edifício Salvador Dali, em construção no bairro do Leblon, um prédio de oito unidades. O diretor da construtora, Ivan Wrobel, diz que pretende adotar o sistema em outros empreendimentos, dois apart-hotéis, em Ipanema.

A instalação da tubulação horizontal encarece um pouco a obra, mas esse custo se paga rapidamente com a redução do consumo de água e, conseqüentemente, de energia elétrica, o que se refletirá num valor de condomínio mais baixo. No médio prazo, a medição individual representará um diferencial importante nas vendas de imóveis.

No Brasil, a solução chega com 20 anos de atraso em relação à Alemanha, por exemplo. A instalação de hidrômetros individuais, em cada apartamento, acaba com distorções, como o pagamento de tarifas iguais para um condômino que mora sozinho e para uma família de cinco pessoas. Além disso, estudos mostram que, quando a medição passa a ser por unidade, os usuários reduzem o desperdício de água. Resultado: uma diminuição de 20% no consumo.

Redução de consumo – Independentemente de obrigações legais, a economia prometida por esses equipamentos é motivo bastante forte para a adoção do sistema. Segundo dados da Sabesp, companhia de água e esgoto de São Paulo, o uso de medidores individuais pode reduzir em até 20% o consumo de água de um prédio. Atualmente, o consumo indiscriminado de água representa de 10% a 12% no preço das taxas condominiais.

De acordo com o engenheiro e administrador Antônio Linus Rech, autor do livro Água, Micromedição e Perdas, editor do site www.aqua.eng.br, não é difícil calcular a redução de consumo com a implantação dos medidores individuais. Em um edifício residencial, por exemplo, basta dividir o valor mensal consumido em m³, pelo número de apartamentos. Se o valor for maior que 20 m³ (20 mil litros), que é um consumo médio aceitável, por apartamento para famílias de classe média, haverá uma economia próxima ao que exceder a esse valor.

Dessa forma, se o resultado da divisão for 27, poderá alcançar-se uma economia de 7 m³ por unidade habitacional. "Além disso, registramos uma mudança de comportamento. O fato de cad um pagar individualmente sua conta inibe o desperdício, o que pode gerar mais economia", acrescenta Benjamin Souza da Cunha, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi- SP).

Em geral, os medidores de água utilizados na medição individualizada são os mesmos equipamentos empregados para a medição coletiva. O que muda são a potência e o tamanho do aparelho que, para um só apartamento, deve ter capacidade e tamanho menores do que o utilizado na medição coletiva. "Nos apartamentos, são empregados os mesmos medidores das residências unifamiliares. A exceção fica por conta daquelas unidades do último andar que, por estarem mais próximas à caixa d´água, podem precisar de medidores maiores, por causa da baixa pressão, esclarece Rech.

A principal alteração provocada pela individualização, entretanto, está na criação de uma Central de Medição Individual (CMI), que capta um sinal gerado por medidor e centraliza as informações de consumo de todos os hidrômetros em um único computador, que pode estar localizado, por exemplo, na portaria do prédio. O objetivo é facilitar as leituras mensais, dispensando o funcionário da companhia de abastecimento de verificar medidor por medidor em cada um dos andares do prédio, o que seria inviável. "Nesse caso, há uma diferença entre o medidor empregado e o convencional, uma vez que a instalação de CMI exige que o hidrômetro emita um sinal – um pulso – não existente nos medidores comuns, explica o engenheiro.

Equipamento de medição – Recentemente, o Liceu de Artes e Of´cios de São Paulo apresentou ao mercado um equipamento de medição individual para apartamentos. Desenvolvido há mais de três anos, o hidrômetro vem sendo adquirido não só por construtoras, que pretendem usa-lo em novos empreendimentos, mas também por edifícios populares em busca de economia. "Há um condomínio com 700 unidades, em Itaquera, na zona leste da cidade, que comprou o nosso produto e obteve uma considerável economia na conta de água", revela o assessor de marketing do Liceu, Helder Rapussi. O custo para a instalação desse medidor nos condomínios é de R$ 150,00 a R$ 200,00 por apartamento.

Hoje, em todo o País, na maior parte dos edifícios, a medição do consumo de água dos apartamentos é feita coletivamente, ou seja, todo o gasto do edifício é rateado entre os condôminos, o que escamoteia o desperdício. "Além do mais, existe muita injustiça no rateio das despesas dos condomínios. Ninguém quer pagar pelo desperdício ou pelo uso excessivo do vizinho", afirma Benjamim Souza da Cunha. "A implantação de medições individuais poderia trazer um pouco mais de justiça a esse processo", complementa.

A maior resistência, sem dúvidas, encontra-se nos edifícios já construídos, pois o custo da alteração técnica a ser feita é alto e complexo. "Em alguns casos, pode ser muito difícil e trabalhosa, havendo necessidade de rompimento de paredes para colocar novas saídas de água e individualizar o abastecimento", conta Antônio Linus Rech. "Também não há o apoio integral das operadoras de água e esgoto, que terão os custos de leitura de medidores e de emissão de contas aumentados, se for também individualizada a cobrança", complementa o engenheiro.

Por essas razões, de acordo com o engenheiro, é difícil prever quando haverá a substituição completa dos medidores coletivos. "Talvez nem tenhamos a substituição completa em função das complexidades técnicas envolvidas nos edifícios já existentes. Mas a tendência é a de que as novas construções adotem esse sistema em todas as cidades brasileiras", acredita Rech.

No entanto, para o vice-presidente do Secovi-SP, esse é um processo muito lento, que só deve ganhar impulso quando a escassez de água for um problema mais imediato. "Com aconteceu durante a crise energética, que obrigou todo mundo a economizar, de uma hora para outra", compara Benjamin Souza de Cunha. "A escassez, que obrigatoriamente eleva os custos de captação e tratamento de água, em todo o mundo, vai mexer no bolso do consumidor final, impondo a eliminação de perdas e desperdícios. Por isso, é possível até que tenhamos um dia a substituição completa dos medidores, se o preço da água aumentar a ponto de justificar as mudanças ou substituição total das redes hidráulicas internas", conclui Rech.- Matéria publicada originalmente em Construção Oesp - Junho 2002.
 
 
 
 
 
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